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Progressão do glaucoma com PIO no alvo: quando investigar a hipotensão arterial noturna. Nota clínica dirigida a médicos - Série de Notas Clínicas, nº 1

Foto do escritor: Honassys Rocha
Honassys Rocha
3 de set.
5 min de leitura

Escopo desta publicação. Este texto é dirigido a médicos e destina-se à discussão técnica entre profissionais. Não constitui recomendação de conduta para pacientes específicos, não substitui a avaliação individual e não deve ser utilizado para automedicação ou para alteração de tratamento sem acompanhamento do médico assistente.



O cenário clínico

Existe um paciente que todo oftalmologista que acompanha glaucoma reconhece: a pressão intraocular está no alvo, a adesão ao colírio é boa, os controles de consultório são consistentemente satisfatórios, e, ainda assim, a camada de fibras nervosas continua afinando no OCT, ou o campo visual continua se deteriorando.


Diante disso, a sequência habitual de raciocínio é conhecida: revisar a técnica de instilação, questionar a adesão real, repetir a curva tensional, considerar variação circadiana da PIO, reavaliar a espessura corneana central, cogitar intensificação terapêutica.


Há uma variável que costuma ficar de fora dessa lista, e que não está no olho: o comportamento da pressão arterial durante o sono.


Por que a noite concentra o risco


A perfusão da cabeça do nervo óptico depende da diferença entre a pressão de chegada do sangue e a pressão intraocular. De forma simplificada:


Pressão de perfusão ocular ≈ pressão arterial − pressão intraocular


O que torna o período noturno particularmente vulnerável é que os dois termos dessa subtração se movem na direção errada ao mesmo tempo:


  • A pressão arterial cai fisiologicamente durante o sono.

  • A pressão intraocular tende a subir, em parte pela mudança para o decúbito e pelo redirecionamento de fluidos.


O resultado é que a baixa da pressão de perfusão ocular acontece justamente quando o paciente está dormindo, ou seja, no único período de 24 horas em que ninguém mede nada. A PIO de consultório, medida sentado, às 10h da manhã, não informa sobre esse intervalo.


Em um paciente com autorregulação vascular preservada, a queda é compensada. Em um paciente com disfunção da autorregulação, cenário descrito com frequência no glaucoma de pressão normal, a compensação falha, e o resultado é hipoperfusão intermitente e repetida ao longo de anos.


O que a evidência sustenta e o que ela não sustenta


Esta é a parte que exige honestidade, porque o tema é frequentemente apresentado com mais certeza do que os dados autorizam.


Sustentado por evidência consistente:


Estudos populacionais de grande porte: Baltimore, Egna-Neumarkt, Barbados, dentre outros, mostram de forma reprodutível que pressões de perfusão ocular diastólicas baixas se associam a maior prevalência e maior incidência de glaucoma primário de ângulo aberto. A associação sobreviveu a diferentes populações, diferentes metodologias e ajuste para os confundidores habituais.


Estudos com monitorização ambulatorial de 24 horas em pacientes já diagnosticados apontam na mesma direção: quedas noturnas acentuadas da pressão arterial se associam a maior risco de progressão campimétrica, com sinal mais forte no glaucoma de pressão normal.


Sustentado por evidência mais fraca ou heterogênea:


A relação entre os padrões de dipping e o desfecho glaucomatoso não é linear. Tanto o extreme dipping (queda noturna superior a 20%) quanto o padrão reverse dipper (pressão noturna maior que a diurna) foram associados a dano glaucomatoso em séries diferentes. Provavelmente estamos diante de dois mecanismos distintos, hipoperfusão em um caso, disfunção vascular sistêmica no outro, e não de um gradiente único.


A associação entre apneia obstrutiva do sono e glaucoma aparece em meta-análises com odds aumentado, mas com heterogeneidade importante entre os estudos.


Não sustentado:


Não existe ensaio clínico randomizado demonstrando que modificar a pressão arterial noturna altera o curso do glaucoma. Toda a base é observacional e prospectiva não intervencionista. A plausibilidade fisiopatológica é boa, a consistência entre estudos é boa, mas causalidade não está estabelecida.


Isso não invalida a investigação. Muda o que se faz com o resultado.


Como investigar na prática


O gatilho não é o diagnóstico de glaucoma. É o fenótipo específico:


Progressão estrutural ou funcional documentada, com PIO dentro do alvo terapêutico, sem explicação por adesão ou por técnica.


Nesse paciente, três passos:


1. Anamnese dirigida. Tontura ou instabilidade ao levantar, especialmente pela manhã. Sensação de cansaço matinal desproporcional. Episódios de escurecimento visual transitório. Roncos, pausas respiratórias relatadas pelo parceiro, sonolência diurna. Histórico de ajuste recente de anti-hipertensivo.


2. MAPA de 24 horas. O pedido deve ser explícito quanto ao que se quer ver: classificação do padrão de descenso noturno e os valores mínimos do período de sono. O laudo padrão nem sempre destaca isso. Vale registrar no pedido a razão clínica — investigação de pressão de perfusão em paciente com neuropatia óptica glaucomatosa progressiva.


3. Rastreio de apneia obstrutiva do sono. O questionário STOP-BANG leva menos de dois minutos e é suficiente como triagem para encaminhamento ou polissonografia.


O que fazer com o resultado e o que não fazer


Aqui está o ponto mais delicado desta nota.


O que não fazer: reduzir, suspender ou reagendar anti-hipertensivo por conta própria. O risco cardiovascular de uma hipertensão subtratada é maior, mais imediato e mais bem documentado do que o benefício hipotético sobre o campo visual. Essa decisão não pertence ao oftalmologista.


O que fazer:


Comunicar o achado ao médico que conduz a hipertensão, com o laudo do MAPA e a informação de que há neuropatia óptica em progressão. A pergunta a ser feita ao colega é específica e legítima: existe margem para ajustar o esquema ou o horário sem comprometer o controle pressórico?


Vale um esclarecimento sobre o horário da medicação. A literatura cardiológica sobre dose noturna versus matinal não sustenta superioridade de um esquema sobre o outro em desfechos cardiovasculares; o ensaio de maior qualidade metodológica encontrou equivalência. Essa ausência de mandato cardiológico é justamente o que abre espaço para individualização quando existe uma segunda razão clínica para preferir um horário.


Reconsiderar o alvo pressórico ocular. Se não conseguimos elevar a pressão de perfusão de forma segura, resta o outro lado da equação. Um paciente com hipoperfusão noturna documentada e progressão em curso pode justificar um alvo de PIO mais baixo do que o inicialmente estabelecido, e essa é uma variável que está integralmente sob controle oftalmológico.


Encaminhar para investigação de apneia quando o rastreio for positivo. Independentemente do efeito sobre o glaucoma, o benefício sistêmico do diagnóstico se justifica por si.


O que ainda não sabemos


  • Se a correção do padrão de dipping modifica o desfecho glaucomatoso.

  • Qual limiar de pressão de perfusão noturna deve disparar conduta.

  • Se o tratamento da apneia altera a progressão.

  • Como pesar o risco cardiovascular contra o risco de perda visual em cada paciente; hoje isso é julgamento clínico individualizado, não protocolo.


A investigação aqui proposta não muda o tratamento do glaucoma na maioria dos pacientes. Ela é dirigida a um subgrupo específico, e seu principal valor é oferecer uma explicação para um fenômeno que, sem ela, permanece atribuído a "má sorte" ou a adesão presumida.




Referências


  1. Tielsch JM, Katz J, Sommer A, et al. Hypertension, perfusion pressure, and primary open-angle glaucoma. Arch Ophthalmol. 1995;113(2):216-221.

  2. Bonomi L, Marchini G, Marraffa M, et al. Vascular risk factors for primary open angle glaucoma: the Egna-Neumarkt Study. Ophthalmology. 2000;107(7):1287-1293.

  3. Leske MC, Wu SY, Hennis A, et al. Risk factors for incident open-angle glaucoma: the Barbados Eye Studies. Ophthalmology. 2008;115(1):85-93.

  4. Charlson ME, de Moraes CG, Link A, et al. Nocturnal systemic hypotension increases the risk of glaucoma progression. Ophthalmology. 2014;121(10):2004-2012.

  5. Bowe A, Grünig M, Schubert J, et al. Circadian variation in arterial blood pressure and glaucomatous optic neuropathy: a systematic review and meta-analysis. Am J Hypertens. 2015;28(9):1077-1082.

  6. Liu JH, Kripke DF, Hoffman RE, et al. Nocturnal elevation of intraocular pressure in young adults. Invest Ophthalmol Vis Sci. 1998;39(13):2707-2712.

  7. Mackenzie IS, Rogers A, Poulter NR, et al. Cardiovascular outcomes in adults with hypertension with evening versus morning dosing of usual antihypertensives in the UK (TIME study): a prospective, randomised, open-label, blinded-endpoint clinical trial. Lancet. 2022;400(10361):1417-1425.

  8. Wu X, Liu H. Obstructive sleep apnea/hypopnea syndrome increases glaucoma risk: Evidence from a meta-analysis. Int J Clin Exp Med. 2015;8(1):297-303.



Conteúdo de caráter informativo e educacional, dirigido a profissionais médicos. Não substitui avaliação clínica individual nem estabelece conduta para casos específicos. As condutas descritas devem ser individualizadas pelo médico assistente.


Conflitos de interesse: o autor declara não haver conflitos de interesse relacionados ao conteúdo desta publicação.


Dr. Honassys Rodrigues Rocha Silva 

Oftalmologista | CRM-BA 13076 | RQE 4984


 
 
 

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Médico Técnico Responsável: Honassys R. Rocha Silva - CRM 13076 RQE 4984

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